sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Patusquinha

setembro 20, 2012






Partiste, amiga, e eu não fui a tempo de te agradecer com um abraço. Estamos sempre muito atrasadas, nós, as pessoas, para fazer o mais simples. Perdoa o meu caráter humano, ainda estou a aprender e muito me ensinaste tu. A ti nem o falar te faltava porque tinhas uma linguagem de gestos e expressões que, creio, ultrapassava o entendimento humano. Como sempre, deste-me mais do que eu a ti, mas fico para contar a tua história, a que só faltei nos capítulos finais. Mitiguei as saudades há uns meses atrás e trouxe comigo o teu olhar triste de incompreensão, mas nos meus ouvidos ecoa ainda o teu ladrar de reconhecimento, da lembrança de mim. Procuro agora nas mãos a humidade do teu focinho, o calor do teu bafo, o afago que solicitavas. E olho para o azul deste sofá vazio no qual nos deixámos tantas vezes dormir, reconfortadas uma da outra. Trouxeste alegria àquele lar, assististe a momentos mais dificeis, estiveste sempre incluída nos mais felizes. Contemplávamos a tua mansidão da mesma forma que nos orgulhávamos da guarda que mantinhas junto ao muro. Nós as duas partilhámos momentos de mulher, engravidei, engravidaste, cuidei dos teus filhos como tu mimaste a minha. Ficaste doente, apoiei-te, superaste com a vontade de ficar, de continuar nossa companhia. Entristeci, esmoreci, perdi, deste-me a pata, lambeste-me a mão com o amor que excede a capacidade humana.
Por que desististe da corrida, minha amiga? Que meiguice, que doçura, que respeito, que lealdade conhecem os homens de facto? Mais uma vez, fui abençoada.
 Até já, Patusca!

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