Lembro-me de chegar a casa naquele domingo e de sentir logo
uma energia diferente na nossa casa. A minha mãe acolheu-me com aquele mesmo
abraço terno e saudoso, mas eu percebi, do alto dos meus 8 anos bem despertos,
que ela calava um desapontamento apenas refletido nos estores descidos da sala,
na TV e no portátil desligados, na louça do almoço por levantar da mesa.
Pequenos sinais de ausência da minha mãe. Minha mãe habitualmente presente.
Eu era criança e sentia-me protegida. Nisso a minha mãe era
muito boa. Às vezes preferia que ela soubesse que eu percebia, porque talvez
assim ela não sufocasse tanto. Compreendo a opção e acho mesmo que não poderia
ser outra. Tratei logo de, irrefletidamente, fazer coisas de criança: ignorei
os estores e a louça e liguei a televisão. Respondi às perguntas da praxe, ouvi
as instruções da praxe, contrariei algumas, como era da praxe. Os silêncios do
costume também ali estiveram, ou talvez não. Lembro-me da minha mãe ao telefone
ainda nessa noite, a ouvir mais do que a falar e a sorrir-me, sorriso com uma
mensagem de consolação, mais para ela do que para mim. E as últimas palavras de
que me lembro nessa noite de férias da escola, noite em que me deitei com a
minha mãe para dormir, mas só eu dormi, foram murmuradas em oração “Senhor,
dá-me o dom do esquecimento”.
Só alguns meses mais tarde eu assumiria a compreensão do que
a minha mãe precisava de esquecer. Só alguns anos mais tarde eu seria mesmo
capaz de alcançar aquilo de que nem ela se atreveu na altura. A minha mãe tinha
urgência em arrumar a memória que ela gostaria de ter repetido e melhorado.
Antes de ser memória, tinha sido presente e um presente e desembrulhado por
quatro mãos felizes, daquelas que querem aproveitar o papel e o laço e, mesmo
sabendo o que vem dentro, ainda se surpreendem. Duas pessoas que viveram um
amor concreto, mesmo que o amor seja abstrato. Abstratos são também os
pensamentos antes de se materializarem em ações e objetos. Este amor concretizou-se em objetos, gestos,
sons, imagens, textos. Foi um amor no plural e na multiplicação, mas encontrou
um obstáculo no valor dado ao tempo: longo demais para ele, curto demais para
ela. Não foi encontrado um meio termo e isso tem tendência a matar o amor que
existe no “nós”. Mas não apaga a memória individual. Infelizmente, pensava a
minha mãe. Embora acreditasse que Deus distribui o tempo de forma perfeita e
que o homem, com o livre arbítrio que lhe é dado, é que não sabe geri-lo, não
entendia a crueza da imposição do fim quando o tempo parecia ser tão certo. Parecia.
Foi de tempo que a
minha mãe precisou para arquivar os materiais desta história. O salto
qualitativo que já dera noutros momentos de crise emocional alterou a sua
tendência masoquista. A minha mãe entendeu que não podia ser o gerador de
alguém que só a ligava quando faltava a luz em casa. É que a minha mãe era de
facto uma central hidroelétrica, na pujança máxima da sua energia. Apenas os
olhos que conseguissem suportar a intensidade dessa luz e não se sentissem
ofuscados por ela haveriam de não mais se desviar. Ainda que a distância… Ainda
que o tempo…
No dia seguinte, a central hidroelétrica acordou com o sol,
abriu as comportas e trocou a lâmpada intermitente. Era abril. Era o princípio
do livro.

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