terça-feira, 18 de setembro de 2012

Venho buscar-te mais tarde

2012 setembro 17

Deixo o teu sorriso nervoso de excitação e interrogação no meio de tantos outros sorrisos e de uma ou outra boca séria de espanto, inibição ou medo. Páro ainda à porta e olho-te, sufocada de orgulho mas também da expetativa do teu crescimento. Levo a mão à parede para que a tremura não me desabe e com a outra aceno-te uma vez mais, mas tu já não me vês. Solicitas e és solicitada, a escola espera-te e preenche quase todo o teu tempo de criança. Eu aceito e deixo de tremer, aprendo a confiar. Deixo-te crescer, aprender e questionar, reconheço que devo deixar-te errar. Engulo em seco e desvio o olhar já com a tua face brilhante do momento fixada na retina.
Consigo finalmente descer as escadas, percorro o corredor, atravesso as passagens. Vejo-te a passar, brincas, choras, danças, argumentas, corpo e mente a mudarem, a criança dá lugar à jovem. Não haverá benção maior que a de assistir a essa transformação! 
Sem pressa, dirijo-me ao carro e despeço-me por algumas horas. Venho buscar-te mais tarde, filha. Peço-te que me mandes calar, que me mandes abrandar, que me mandes ter tempo para ti. Às vezes esqueço-me da nossa diferença de ritmos e de altura, às vezes esqueço-me que todos os dias te apresentas a mim, às vezes perdoo-me por isso e sorrio como tu... como hoje.

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