Campeonato de Escrita Criativa 2012


Agora que chega ao fim o 15º Campeonato de Escrita Criativa das últimas 10 semanas de 2012, da responsabilidade de Pedro Chagas Freitas, publico os textos que escrevi ao longo destas semanas, segundo as instruções e os critérios fornecidos.
Foi, sobretudo, uma forma de me disciplinar numa prática regular de escrita, por "objetivos", vindo confirmar que as ideias e a escrita fluem mais livremente quando não os tenho... Foram desafios interessantes, muito diferentes e inusitados, uns de apelo mais emocional, outros a requerer mais imaginação, lembrando até o fantástico!

«O Campeonato Nacional de Escrita Criativa é uma prova semanal de escrita enviada via e-mail para os concorrentes – e avaliada por um júri composto por três pessoas: um escritor, um professor da área de letras e um leitor “normal mas compulsivo”.

O prémio para o vencedor – e, eventualmente, para o segundo classificado (se a qualidade assim o merecer) – é a publicação de uma obra da sua autoria.

E assim, durante 10 semanas, se viaja pelos territórios da escrita e da criatividade.»

Bom, não fui a vencedora e não vi nenhum dos meus textos publicados no blogue do campeonato, mas comecei em 2º lugar e mantive-me nos lugares cimeiros durante as 8 semanas subsequentes, à exceção da última... em que preteri o prazer da escrita pelo deleite da companhia da família e de amigos na azáfama feliz e saudável dos últimos dias do ano! No entanto, como prefiro apreciar o processo e não o resultado, retiro desta experiência a melhor aprendizagem possível, orgulhando-me da minha participação e preparando-me... para outros campeonatos! 



1ª jornada
Escreva a Branca de Neve de acordo com o ponto de vista de um dos anões

ZANGADO E BRANCA, UMA ESTÓRIA MODERNA DE MUDANÇA



João Zangado era um anão inconformado, um revoltado passivo. Emigrado de Portugal há 7 anos, aceitou um contrato com uma empresa de trabalho temporário como mineiro no interior da Alemanha. Aí, não obstante o seu humor insuportável, conheceu seis outros anões. Um deles, alcunhado de Mestre, aproveitou a ira impulsiva de Zangado para desencadear um movimento de luta pelos direitos dos anões mineiros vítimas de discriminação, usados que eram para os túneis mais estreitos e para entreterem os capatazes alemães com números de circo amador. A causa difundiu-se e os anões conseguiram apoios para uma casa e parte da floresta onde continuaram a explorar uma mina de ouro, assim se sustentando.

Ainda assim, Zangado não se sentia satisfeito. Faltava alguma coisa…

A reviravolta deu-se no dia em que, regressados de mais uma jornada, os anões se depararam com a casa vandalizada. Zangado tinha mais do que motivos para ficar zangado. Foi o próprio a dar com uma miúda mais branca que neve a dormir serenamente na sua cama. “Que porra é esta?! És imigrante ilegal? Escapaste às malhas da prostituição? Ou às redes de tráfico humano?” Branca de Neve acordou assarapantada com o questionário, achando que estava nas masmorras da polícia ou no “Quem quer ser Milionário”. Pediu ao Zangado que não se zangasse por ter ocupado a cama, mas este tinha-se-lhe afigurado um lugar seguro para se esconder da madrasta que vinha exercendo sobre ela, desde a morte do pai, a mais tenebrosa violência, a juntar à incompreensão social face à sua malfadada doença de pele. Este relato deixou Zangado identificado e furioso, a ponto de permitir a ocupação permanente da cama por Branca. Daí o desalento enraivecido quando, semanas depois, foi encontrá-la inanimada no chão. Ao que parecia, a miúda teria permitido a entrada de um vendedor porta-a-porta, depois de aceitar amizade no Facebook. O homem fazia-se passar por consultor comercial da Apple, “envenenando-a” com a intrujice de que receberia um mini-iPad em troca de uma sessão fotográfica para uma revista. Branca não suportou a luz forte e desmaiou.

                Num choro de revolta, Zangado levou Branca ao hospital, onde foi reanimada pelo médico Encantado. E, na magia do cruzamento desses olhares, Zangado relaxou o sobreolho e desenhou um sorriso pela primeira vez, decidindo tornar-se um Palhaço de Hospital. Foi ainda contratado para animar o casamento de Branca com o Dr. Encantado.

                E viveram menos zangados para sempre.


2ª jornada
Escreva sobre uma das mais fáceis decisões que teve de tomar na sua vida.


                      CASAR É FÁCIL

                      O divórcio foi uma decisão quase tão fácil quanto a de casar. Mas a decisão de casar foi definitivamente a mais fácil dos seus 37 anos de vida.

                Era um tempo ligeiro, sem enredos complicados, de uma imaturidade feliz e despreocupada e uma mochila às costas de sonhos e boas intenções. Era só uma miúda que queria ser mulher de alguém antes de o ser ela própria, uma curiosa e criativa, empenhada e apaixonada, demasiado apressada.

                A decisão de casar implicou várias outras decisões inerentes, como a de levantar raízes da terra-mãe e mergulhá-las noutros campos, de arroz, do Mondego, férteis e pródigos. Tudo se resumia a geografia e a uma gestão eficiente da saudade. Estavam reunidas as circunstâncias externas, havia um somatório de vontades e desejos comuns, havia sentimentos que pressupunham votos de vida conjugal e urgência de proximidade, por que não?

                - Pai, mãe, vamos casar. Em Janeiro, para aquecer o Inverno dos primeiros dias do último ano do milénio, nosso ano zero. Precisamos da vossa aprovação… e de uma ajuda financeira. Irrecusável, não?
                Nada mais fácil. Afinal, o que se faz com entusiasmo e amor, faz-se bem, flui e desenvolve sem esforço. Estava instalado o corrupio de tarefas, a azáfama histérica dos preparativos que, por vezes, lhe traziam calafrios de arrependimento, mas nada mais que isso. Naquela altura, honravam-se as decisões tomadas, especialmente as deste calibre, e a miúda precisava de credibilidade, de ser levada a sério.
                Rapidamente se consumou o evento que ficou longe de se aproximar da projeção que havia fabricado. Erro dela que a impediu de desfrutar. Ainda assim, o sucesso foi garantido por todos os que se comprometeram a garantir a harmonia, aliviados com a aparente mansidão da desposada impaciente. Nada a recear, estava casada, o seu marido era o pilar da tolerância e da renovação, só precisaria de ser ela mesma. Fácil.
Mentira. Há decisões que são fáceis no contexto em que ocorrem, e tão voláteis quão insatisfeitas as pessoas se tornarem. Não há por que censurar uma decisão, culpar-se por tê-la tomado, arrepender-se ou viver aprisionado a ela. Por isso, decidir resolver as consequências de uma decisão também deve constituir uma tarefa fácil.

                     Quem o diz hoje não é mais a miúda que decidiu – e muito bem! – casar há 15 anos atrás, é a mulher que ousou mudar o paradigma da submissão à decisão. E isso não foi assim tão fácil. 


3ª jornada
Vista a pele de um fio de cabelo que percebe que está a chegar a um cabeleireiro.


POR UM FIO
 
           Sexta-feira, 18 horas. Vento, uma pinga ou outra de chuva que o guarda-chuva não cobre, o frio já cortante de novembro. Aconchego-me no remoinho de ideias junto à fonte direita desta cabeça arredondada, feminina, arrumada, onde habito, com a qualidade de vida possível, e que partilho com outros mil milhares de companheiros, uns vizinhos, outros muito afastados, concentrados noutros continentes capilares.
                Os alertas cerebrais do dia de hoje apontam para um jantar que deixa em particular alvoroço este hemisfério direito, logo, depreendo tratar-se de um encontro não profissional a que não assisto há um bom par de anos. Não fiquem tão perplexos com a minha perspicácia… Sou um tipo sortudo, vivo num ambiente de criatividade permanente, por vezes até fico em pé com tanta energia! Isto apesar de ter sido vítima de frequentes invasões parasíticas e estrangulamentos diários provocados por ganchos, elásticos, bandeletes e afins, ainda era eu um jovem esguio e curto, a lutar pela vida. À semelhança dos meus pares, aprendi algumas técnicas de defesa pessoal e, assim, fui resistindo aos ataques diários da escova e ao vendaval febril do secador. As idas ao cabeleireiro eram relativamente esporádicas e, felizmente, nunca fui sujeito a descolorações agressivas ou a alterações bruscas de tamanho e de forma. Hoje sou um dos cinco anciães desta comunidade, estou menos oleoso, mais quebradiço e a tonalidade castanho-avelã deu lugar a um cinza-esbranquiçado. Mantive-me liso até aos dias de hoje, mas não perdi o brilho - acho que é do champô…
                O cabeleireiro está marcado para as 18. Está atrasada, mas afinal ainda tem de esperar. Enquanto folheia uma revista, eu vou assistindo à decapitação em massa de semelhantes meus, os chamados “espigados”, ao reboco do descolorante em camadas de comichão e frio entranhado, ao efeito estátua causado pela pulverização consentida das lacas. A espera sádica perfeita!
                «Vamos lavar?»
                É a Carmen que chama. Ah! A melhor massagista do salão. Entrego-me ao duche quente e à suavidade do toque dos dedos gentis, embora calejados, da Carmen. Desperto já na cadeira fatídica.
                «Então, que vamos fazer hoje? O costume?!»
                Alex! Ui! Este é o arrojado… É para fazer o costume, mas com mais requinte, a ocasião exige-o. Sou alisado, secado, puxado, arredondado. Afinal, o brushing do costume.
                E eis que é sugerido o arranque daquele cabelito branco descaradamente exposto no frontispício desta mulher- monumento. Tremo, expectante.
                «Não, Alex! Esse ainda tem uma história para contar.» 



4ª jornada
“Se não arriscares nada, estás a arriscar muito mais...” O que significa isto para si?



TERAPIA DO RISCO


                   Fora uma semana extenuante, marcada pelo desfile de dúvidas, um catálogo de medos, uma lista de “ses” perversos. Escutei e anotei tudo escrupulosamente, mantendo o profissionalismo a que tinha habituado os pacientes. Já distanciada o suficiente, reli os apontamentos e analisei-os, considerando o fim terapêutico destas consultas. Concluí, afinal, que havia semelhanças entre todos.
                O Sr. P., por exemplo, sentia-se insuportavelmente pressionado desde que o chefe o tinha convidado a gerir o novo escritório da empresa, a três mil quilómetros, noutro país, noutra cultura. A decisão estava adiada há um mês, na expetativa da desistência ou do esquecimento, poupando-se à angústia da mudança, ao medo da responsabilidade. “E se voltar a convidar-me?”, perguntava ele.
                Já a jovem M. debatia-se com a aceitação da sua homossexualidade no seio da família conservadora, na sociedade escrava de preconceitos e na sua própria ideia de normalidade. Vivia à margem dela mesma, numa culpabilização sem tréguas, a respirar debaixo d’água sempre que se permitia exteriorizar emoções genuínas. “E se não me aceitarem?”, questionava ela.
                A Sra. H., socialmente respeitada e profundamente infeliz, vinha experimentando um conflito interior causado pela retração do ímpeto sexual que o assédio do colega de trabalho lhe havia despertado. Habituara-se de tal forma à paz podre do casamento e à ausência confortável de emoções, que a invasão daquele formigueiro de excitação lhe trazia uma agonia de infratora, como se pensar e sentir constituíssem contra-ordenações muito graves. “E se não me controlar?”, indagava ela.
                Também o casal S. trazia uma dúvida, uma “questão de vida ou de morte”, como lhe chamaram. A ela havia sido diagnosticado um cancro terminal acompanhado da sentença de um a três meses de vida, conforme reação aos tratamentos. A ele havia sido decretada a viuvez precoce, antecedida de calendário definido por médicos à revelia de qualquer plano divino. “E se vivêssemos como se não houvesse amanhã?”, interrogavam-se eles.
                Duas semanas depois, voltei a recebê-los. Tinha igual resposta para todos, com palavras diferentes para cada um, salvaguardando o livre arbítrio e as consequências das escolhas individuais. Aconselhei o Sr. P. a saltar de paraquedas, a jovem M. a pintar o cabelo de laranja, a Sra. H. a aprender dança do varão e o casal S. a comprar uma autocaravana. Ofereci-lhes ainda um exemplar do meu último livro, Se não arriscares nada, arriscas muito mais, e pedi-lhes que arriscassem ser felizes.
                Daqui a quinze dias, haverá nova consulta.
 



5ª jornada
Um cartão de São Valentim que nunca chegou. Explore este enredo.
CARTA ROUBADA

Aproveitei a ocasião para escrever uma carta. Apetecia-me marcar pela diferença, ceder ao romantismo e codificar as emoções no papel. Desliguei o telemóvel, alheei-me dos ruídos desconcertantes da cidade, evadi-me das solicitações culposas do trabalho e concentrei-me apenas na brancura expectante da folha. Como numa tela, passei em revista os quadros vivos dos últimos meses de febre passional e contemplei o sentido poético deste encontro. Era um mundo novo, de experiências sensoriais incomuns, de uma combinação viciante de liberdade e aprisionamento. Sentia que fazíamos história em todos os testemunhos fixados em fotos, nas mensagens trocadas, nas experiências irrepetíveis, até mesmo nas pegadas com que marcávamos o chão com os nossos passeios. Um amor a amadurecer desta forma merecia um manuscrito que daqui a vinte anos, já com os cantos amarelados e a tinta desbotada da humidade, fosse descoberto num baú de memórias num sótão quase com a mesma idade… Muito ao estilo vintage, como ela gosta. Procurei materializar em palavras o valor do compromisso e o desejo de o eternizar, mesmo sabendo do caráter efémero das coisas, concretas ou abstratas. Senti orgulho da minha carta, da honestidade e rendição com que a escrevi e das horas que nela investi, como o artista que reconhece a verdade da sua obra. Apressei-me, portanto, a remetê-la ao seu destinatário, apreciando o revivalismo daquela ida aos correios, preterida há muito pela instantaneidade da tecnologia.
                No regresso a casa, parado no semáforo, pareceu-me avistar os longos cabelos negros da minha musa e reconheci, enfim, o seu caminhar ondulante. Os seus passos eram acompanhados de um homem que lhe segurava a mão e enchia a rua com risos vibrantes que a mim já atingiam como flechadas na cabeça, causando-me dores lancinantes. Encostei o carro e centrei-me na namorada a quem tinha endereçado uma carta. Dela vinha o brilho de um estado de graça que me era incompreensível. E foi no momento do beijo despudorado que despertei para a frieza da deslealdade. Abalei dali sufocado pela frustração de sentir e pelo arrependimento da exposição, mas a carta já viajava pelos circuitos de distribuição instituídos. Preferia reservar-me o direito de recuperar a privacidade emocional.
                Esperei, não havia mais nada a fazer.
                No dia seguinte, dia de S. Valentim, ouvi as notícias. “Os assaltantes que invadiram ontem a estação de correios de Celas terão levado toda a correspondência do dia, na expetativa, talvez, de encontrar algum cheque ao portador.”

6ª jornada
Escreva uma história em que o personagem principal seja um fotógrafo de 60 anos de idade.


FOTÓGRAFO DE VIDAS

                 Histórias de pessoas, retratos de culturas, sorrisos de pobres, lágrimas de ricos, afetos partilhados e sentimentos estilhaçados a forrarem uma mesa como uma toalha de padrões dinâmicos, aqui debruada a preto e branco, ali rendilhada de cores vivas. Quarenta anos dedicados à arte de captar emoções com um clique, alguma técnica, muita criatividade e todo o amor ali estavam espalhados sobre aquela mesa, expectantes de admiração.
                Haviam-lhe pedido uma seleção das três fotos mais relevantes da sua carreira, que fosse preparado para contar a história nelas refletida e para justificar a dedicação de uma vida à representação da sociedade em imagens. Seria uma homenagem singela, mas sentida, ainda que tardia, face ao número de prémios recebidos ao longo do seu percurso profissional e ao legado cultural e artístico extraído do mundo e a ele devolvido.
                Apesar da galopante névoa ocular, o fotógrafo concentrava-se novamente na toalha de fotos, recordando o contexto de cada uma, fixando os olhos nos pormenores dos rostos anónimos e fazendo interpretações inéditas de olhares, expressões e movimentos. Todas eram importantes e escolher três em detrimento das restantes seria como arrancar de um livro três páginas ao acaso para com elas resumir todo o livro… No meio dos muitos recortes fotográficos dispostos quase aleatoriamente, detinha-se aqui e ali numa fotografia de um amigo, de um familiar, dos filhos, da esposa, de gente já ida, dos que permaneciam ainda e daqueles de quem tinha perdido o rasto. Ordenou com dificuldade uma série de retratos da mulher, jovem e plena de saúde, extasiada com a descoberta da maternidade, a defender causas com convicção e a lutar numa cama de hospital, a despedir-se, ainda com a mesma beleza e a mesma luz…
                No nevoeiro da memória, percebeu que fotos deveria levar. Foi buscar a velha máquina, avesso que era à tecnologia digital, e procurou captar a visão de conjunto daquele patchwork perfeito. De seguida, fotografou a sua mão esquerda com os dedos a procurarem um enquadramento. Finalmente, após várias tentativas, conseguiu a foto possível do seu olho direito.
                Uma semana depois, na cerimónia, “apresentou-se” e justificou a escolha: “Mário Matoso, 60 anos, parcialmente cego e doente de Parkinson, fase quatro. Fui, até há uma semana atrás, fotógrafo de Vidas, de acasos e despedidas. Revelo-vos hoje as três fotos mais representativas da minha paixão: os rostos do meu portefólio, a pontaria do meu olho, a destreza da minha mão. Até sempre.”


7ª jornada
Um jovem executivo está, a roer as unhas e nervoso, sentado na mesa do seu escritório. Em que pensa ele?
 



ACONTECEU NUM ESCRITÓRIO


                  Luís olhava fixamente, ora para o telefone sobre a secretária, ora para a porta que ainda o preservava do mundo “normal”, enquanto mantinha a cadência frenética do pé direito a calcar o chão alcatifado e roía sofregamente a unha do dedo médio da mão esquerda. Todo o seu corpo era uma ramificação complexa de fios elétricos e a cabeça era o centro de operações a latejar de tanta informação, da tensão acumulada, da dor da consciência. Procurava ainda a motivação razoável que o teria levado a empreender aquela coleção de erros repetidos ao longo de anos, sobretudo agora que era obrigado a confrontar-se com essa caderneta de culpas exclusivas. Quanto mais pensava no executivo em que se havia tornado em tão pouco tempo, na simplicidade com que a vida o guiara ao sucesso e na forma como ele próprio, ingrato, se apropriara dessa bonança, mais certezas tinha da patologia que o caracterizava: Luís reconhecia ser um errante compulsivo. O erro era-lhe intrínseco e a culpa tardia funcionava como o analgésico breve da vitimização, do arrependimento. Passado o efeito, tomava uma boa vitamina de esquecimento para fazer o circuito recomeçar com renovada confiança, porque os fins justificavam os meios. No momento em que a gravidade da situação suplantava o limite do tolerável social e juridicamente, passava em revista os delitos cometidos com um misto de perturbação, incompreensão e orgulho sádico… Começaram por ser experiências teatrais de mentiras brancas em casa e na escola, de ocultação ou invenção de identidade, de pequenos furtos da biblioteca e da livraria, tudo feito com um engenho e uma perícia precoces demais… A impunidade marcou o compasso e determinou a opção por um tipo de crime mais organizado, menos ingénuo, com objetivos precisos. Foi assim que acabou um curso que nunca frequentou, que herdou heranças de quem acabara de conhecer, que conseguiu um emprego sem competências técnicas para o assumir, que convenceu anónimos a contribuírem para causas que nunca existiram… Até ao dia em que a racionalidade se deixou afetar pela emoção e Luís apaixonou-se! Helena era uma mulher astuta, vibrante, sedutora, com um “cadastro” invejável que logo cativou Luís… Tudo se precipitou: Luís passara de predador a presa e ia responder pelos comportamentos desviantes agora expostos perante a sociedade. Continuava a jogar ping-pong com o olhar à espera da inevitável resolução, quando tocou o telefone, bateram à porta… Luís disparou.


8ª jornada
“Dar-lhe o meu número de telefone foi, percebi-o depois, um grande erro.”
 

  ERRO DE EXPETATIVA

          Guardava muita expetativa em relação àquela conferência. O tema da interpretação das emoções no contexto de uma sociedade cada vez mais individualista e castradora era-me caro enquanto psicóloga e formadora. A parte da manhã foi interessante, dividida entre conceitos gerais da psicologia e a forma como as organizações têm observado e (des)valorizado a democratização das emoções e da “felicidade” no seu funcionamento. A primeira comunicação da tarde foi morna, sem acrescentar nada de novo ao já conhecido senso comum. Era curioso perceber como, num encontro subordinado a este tema, as pessoas continuavam a não ser sinceras, a manter posturas demasiado rígidas, controladas, de um respeito cínico, um cuidado artificial, visíveis na contradição entre o que era dito no palco, ali em cima, e o que era demonstrado no coletivo, ali em baixo. Começava a considerar a hipótese de abandonar o centro de congressos mais cedo… Mas resolvi dar uma oportunidade ao segundo painel. Em boa hora, considerei na altura, logo no momento em que o meu olhar acompanhou o caminhar balanceado do homem que haveria de conseguir despertar os sentidos daquela plateia, exigente e ávida do inesperado, a querer emoções fortes. Bom, a mim, definitivamente, despertou!

                Um neurologista na casa dos quarenta que veio convitamente revelar o trabalho que vinha desenvolvendo no sentido de incluir na medicina convencional o tratamento das emoções, enquanto resposta a tantas lacunas que a primeira não conseguia colmatar. A determinação, a confiança e a ousadia da sua comunicação e da sua presença arrebataram-me. De tal forma que, mal se deram por terminadas as comunicações, me dirigi a ele com alguma ansiedade, mas com o objetivo concreto de lhe transmitir a minha admiração que acabou por ser recebida com grande humildade. Encetámos um diálogo pautado por uma química inteletual totalmente inusitada que nos levou a prolongá-lo pela noite fora. Despedimo-nos precipitadamente, já quase de madrugada, falando já de parcerias profissionais e encontros pessoais, para confirmarmos a reciprocidade do encantamento. Um abraço, um toque, muita emoção, a promessa de um contacto, uma grande expetativa.

                Dois meses depois, continuava ainda à espera da consumação desse encontro que veio engrossar a lista dos enganos, das fraudes, das frustrações causadas por se esperar sempre demais dos outros. Dar-lhe o meu número de telefone foi, percebi-o depois, um grande erro. Tinha sido a prova cabal da minha expetativa e isso é, no coletivo, motivo de medo e repúdio. Mais do mesmo.


9ª jornada
O que faz com que o apresentador de um programa de televisão se mostre, de repente, absolutamente em pânico com uma mosca que voa junto à sua cabeça?


A QUARTA PRAGA

O alarme tocava, anunciando o sacrifício de despertar para mais um dia num mundo transformado em cenário apocalítico, onde os quatro elementos e as espécies vinham intentando o extermínio progressivo da raça humana. Aproximando-se da janela, de onde podia observar os primeiros movimentos rotineiros da cidade, David constatava o ritmo cada vez mais brando e os espaços cada vez maiores nas estradas, nos passeios, nos jardins. “Somos cada vez menos… cada dia somos menos aos milhares…”, refletia, enquanto a sua memória o guiava até há cerca de três meses atrás, momento em que as pragas começaram a suceder-se, levando à dizimação dos primeiros núcleos populacionais. Nem Hollywood preparara o mundo para tal experiência – a ficção era ultrapassada pela realidade de forma parcialmente incrédula, quando uns aceitavam a morte como garantida, muitos ainda acalentavam a possibilidade do final feliz, enquanto outros tantos se arriscavam na busca da solução, procurando saldar a dívida com a quota integral da responsabilidade. Tratava-se, já não restavam dúvidas, da reprodução das dez pragas do Egito… com dez vezes mais amplitude. Depois da contaminação dos principais rios de cada continente – não decorrente, desta vez, de erupção vulcânica -, da invasão de rãs e sapos mutantes a espalhar epidemias, e do surto de piolhos de dimensões amplificadas e picadas mortíferas, perante a ausência de explicação científica e a semelhança assombrosa com a descrição das primeiras três pragas no livro do Êxodo, admitiu-se a repetição da ação reparadora de Deus, como inscrito na Bíblia.

                David apresentava um programa de informação duma estação de televisão nacional, tendo como convidados de debate dos últimos meses defensores e opositores desta teoria, alguns entretanto já vítimas das contaminações. Preparava-se, hoje, para gravar mais um desses programas que prometia elevadas audiências, dado o caráter profético de que se revestia. Afinal, aceitar a ideia da reprodução das pragas implicava algo muito mais catastrófico: as sete que se seguiriam… Daí que durante a discussão se tenha instalado um mal estar crónico, resultante do mais duro reconhecimento da impotência humana.

                E foi no momento da letargia moribunda a anteceder o final do debate que se ouviu no estúdio um zumbido perturbado. David percebeu, em absoluto pânico, a presença da mosca junto à sua cabeça. Técnicos e convidados haviam acorrido ao exterior do estúdio para obter a terrível confirmação. A nuvem de moscas trouxera as trevas prematuramente, preparando-se para desabar sobre a humanidade. Cumpria-se a quarta praga.
  

Sem comentários:

Enviar um comentário