Agora que chega ao fim o 15º Campeonato de Escrita Criativa das últimas 10 semanas de 2012, da responsabilidade de Pedro Chagas Freitas, publico os textos que escrevi ao longo destas semanas, segundo as instruções e os critérios fornecidos.
Foi, sobretudo, uma forma de me disciplinar numa prática regular de escrita, por "objetivos", vindo confirmar que as ideias e a escrita fluem mais livremente quando não os tenho... Foram desafios interessantes, muito diferentes e inusitados, uns de apelo mais emocional, outros a requerer mais imaginação, lembrando até o fantástico!
«O
Campeonato Nacional de Escrita Criativa é uma prova semanal de escrita
enviada via e-mail para os concorrentes – e avaliada por um júri
composto por três pessoas: um escritor, um professor da área de letras e
um leitor “normal mas compulsivo”.
O
prémio para o vencedor – e, eventualmente, para o segundo classificado
(se a qualidade assim o merecer) – é a publicação de uma obra da sua
autoria.
Bom, não fui a vencedora e não vi nenhum dos meus textos publicados no blogue do campeonato, mas comecei em 2º lugar e mantive-me nos lugares cimeiros durante as 8 semanas subsequentes, à exceção da última... em que preteri o prazer da escrita pelo deleite da companhia da família e de amigos na azáfama feliz e saudável dos últimos dias do ano! No entanto, como prefiro apreciar o processo e não o resultado, retiro desta experiência a melhor aprendizagem possível, orgulhando-me da minha participação e preparando-me... para outros campeonatos!
1ª jornada
Escreva a Branca de Neve de acordo com o ponto de vista de um dos anões
ZANGADO E BRANCA, UMA ESTÓRIA MODERNA DE MUDANÇA
João Zangado era um anão
inconformado, um revoltado passivo. Emigrado de Portugal há 7 anos, aceitou um
contrato com uma empresa de trabalho temporário como mineiro no interior da
Alemanha. Aí, não obstante o seu humor insuportável, conheceu seis outros
anões. Um deles, alcunhado de Mestre, aproveitou a ira impulsiva de Zangado
para desencadear um movimento de luta pelos direitos dos anões mineiros vítimas
de discriminação, usados que eram para os túneis mais estreitos e para
entreterem os capatazes alemães com números de circo amador. A causa
difundiu-se e os anões conseguiram apoios para uma casa e parte da floresta
onde continuaram a explorar uma mina de ouro, assim se sustentando.
Ainda assim, Zangado não se sentia
satisfeito. Faltava alguma coisa…
A reviravolta deu-se no dia em
que, regressados de mais uma jornada, os anões se depararam com a casa
vandalizada. Zangado tinha mais do que motivos para ficar zangado. Foi o
próprio a dar com uma miúda mais branca que neve a dormir serenamente na sua
cama. “Que porra é esta?! És imigrante ilegal? Escapaste às malhas da
prostituição? Ou às redes de tráfico humano?” Branca de Neve acordou
assarapantada com o questionário, achando que estava nas masmorras da polícia
ou no “Quem quer ser Milionário”. Pediu ao Zangado que não se zangasse por ter
ocupado a cama, mas este tinha-se-lhe afigurado um lugar seguro para se
esconder da madrasta que vinha exercendo sobre ela, desde a morte do pai, a
mais tenebrosa violência, a juntar à incompreensão social face à sua malfadada
doença de pele. Este relato deixou Zangado identificado e furioso, a ponto de
permitir a ocupação permanente da cama por Branca. Daí o desalento enraivecido
quando, semanas depois, foi encontrá-la inanimada no chão. Ao que parecia, a
miúda teria permitido a entrada de um vendedor porta-a-porta, depois de aceitar
amizade no Facebook. O homem fazia-se passar por consultor comercial da Apple, “envenenando-a”
com a intrujice de que receberia um mini-iPad em troca de uma sessão
fotográfica para uma revista. Branca não suportou a luz forte e desmaiou.
Num
choro de revolta, Zangado levou Branca ao hospital, onde foi reanimada pelo
médico Encantado. E, na magia do cruzamento desses olhares, Zangado relaxou o
sobreolho e desenhou um sorriso pela primeira vez, decidindo tornar-se um
Palhaço de Hospital. Foi ainda contratado para animar o casamento de Branca com
o Dr. Encantado.
E
viveram menos zangados para sempre.
2ª jornada
Escreva
sobre uma das mais fáceis decisões que teve de tomar na sua vida.
CASAR É FÁCIL
O divórcio foi uma decisão quase
tão fácil quanto a de casar. Mas a decisão de casar foi definitivamente a mais
fácil dos seus 37 anos de vida.
Era
um tempo ligeiro, sem enredos complicados, de uma imaturidade feliz e
despreocupada e uma mochila às costas de sonhos e boas intenções. Era só uma
miúda que queria ser mulher de alguém antes de o ser ela própria, uma curiosa e
criativa, empenhada e apaixonada, demasiado apressada.
A
decisão de casar implicou várias outras decisões inerentes, como a de levantar
raízes da terra-mãe e mergulhá-las noutros campos, de arroz, do Mondego,
férteis e pródigos. Tudo se resumia a geografia e a uma gestão eficiente da
saudade. Estavam reunidas as circunstâncias externas, havia um somatório de
vontades e desejos comuns, havia sentimentos que pressupunham votos de vida
conjugal e urgência de proximidade, por que não?
-
Pai, mãe, vamos casar. Em Janeiro, para aquecer o Inverno dos primeiros dias do
último ano do milénio, nosso ano zero. Precisamos da vossa aprovação… e de uma
ajuda financeira. Irrecusável, não?
Nada
mais fácil. Afinal, o que se faz com entusiasmo e amor, faz-se bem, flui e
desenvolve sem esforço. Estava instalado o corrupio de tarefas, a azáfama
histérica dos preparativos que, por vezes, lhe traziam calafrios de
arrependimento, mas nada mais que isso. Naquela altura, honravam-se as decisões
tomadas, especialmente as deste calibre, e a miúda precisava de credibilidade,
de ser levada a sério.
Rapidamente
se consumou o evento que ficou longe de se aproximar da projeção que havia
fabricado. Erro dela que a impediu de desfrutar. Ainda assim, o sucesso foi
garantido por todos os que se comprometeram a garantir a harmonia, aliviados
com a aparente mansidão da desposada impaciente. Nada a recear, estava casada,
o seu marido era o pilar da tolerância e da renovação, só precisaria de ser ela
mesma. Fácil.
Mentira. Há decisões que são fáceis
no contexto em que ocorrem, e tão voláteis quão insatisfeitas as pessoas se
tornarem. Não há por que censurar uma decisão, culpar-se por tê-la tomado, arrepender-se
ou viver aprisionado a ela. Por isso, decidir resolver as consequências de uma
decisão também deve constituir uma tarefa fácil.
Quem o diz hoje não é mais a
miúda que decidiu – e muito bem! – casar há 15 anos atrás, é a mulher que ousou
mudar o paradigma da submissão à decisão. E isso não foi assim tão fácil.
3ª jornada
Vista a pele de um fio de cabelo que percebe que está a chegar a um cabeleireiro.
3ª jornada
Vista a pele de um fio de cabelo que percebe que está a chegar a um cabeleireiro.
POR UM FIO
Sexta-feira, 18 horas. Vento, uma pinga ou outra de
chuva que o guarda-chuva não cobre, o frio já cortante de novembro.
Aconchego-me no remoinho de ideias junto à fonte direita desta cabeça
arredondada, feminina, arrumada, onde habito, com a qualidade de vida possível,
e que partilho com outros mil milhares de companheiros, uns vizinhos, outros muito
afastados, concentrados noutros continentes capilares.
Os
alertas cerebrais do dia de hoje apontam para um jantar que deixa em particular
alvoroço este hemisfério direito, logo, depreendo tratar-se de um encontro não
profissional a que não assisto há um bom par de anos. Não fiquem tão perplexos
com a minha perspicácia… Sou um tipo sortudo, vivo num ambiente de criatividade
permanente, por vezes até fico em pé com tanta energia! Isto apesar de ter sido
vítima de frequentes invasões parasíticas e estrangulamentos diários provocados
por ganchos, elásticos, bandeletes e afins, ainda era eu um jovem esguio e
curto, a lutar pela vida. À semelhança dos meus pares, aprendi algumas técnicas
de defesa pessoal e, assim, fui resistindo aos ataques diários da escova e ao vendaval
febril do secador. As idas ao cabeleireiro eram relativamente esporádicas e,
felizmente, nunca fui sujeito a descolorações agressivas ou a alterações
bruscas de tamanho e de forma. Hoje sou um dos cinco anciães desta comunidade,
estou menos oleoso, mais quebradiço e a tonalidade castanho-avelã deu lugar a
um cinza-esbranquiçado. Mantive-me liso até aos dias de hoje, mas não perdi o
brilho - acho que é do champô…
O
cabeleireiro está marcado para as 18. Está atrasada, mas afinal ainda tem de
esperar. Enquanto folheia uma revista, eu vou assistindo à decapitação em massa
de semelhantes meus, os chamados “espigados”, ao reboco do descolorante em
camadas de comichão e frio entranhado, ao efeito estátua causado pela
pulverização consentida das lacas. A espera sádica perfeita!
«Vamos
lavar?»
É
a Carmen que chama. Ah! A melhor massagista do salão. Entrego-me ao duche
quente e à suavidade do toque dos dedos gentis, embora calejados, da Carmen.
Desperto já na cadeira fatídica.
«Então,
que vamos fazer hoje? O costume?!»
Alex!
Ui! Este é o arrojado… É para fazer o costume, mas com mais requinte, a ocasião
exige-o. Sou alisado, secado, puxado, arredondado. Afinal, o brushing do costume.
E
eis que é sugerido o arranque daquele cabelito branco descaradamente exposto no
frontispício desta mulher- monumento. Tremo, expectante.
«Não,
Alex! Esse ainda tem uma história
para contar.»
4ª jornada
“Se não arriscares nada, estás a arriscar muito
mais...” O que significa isto para si?
TERAPIA DO RISCO
Fora uma semana extenuante, marcada pelo desfile de dúvidas,
um catálogo de medos, uma lista de “ses” perversos. Escutei e anotei tudo
escrupulosamente, mantendo o profissionalismo a que tinha habituado os
pacientes. Já distanciada o suficiente, reli os apontamentos e analisei-os, considerando
o fim terapêutico destas consultas. Concluí, afinal, que havia semelhanças
entre todos.
O
Sr. P., por exemplo, sentia-se insuportavelmente pressionado desde que o chefe
o tinha convidado a gerir o novo escritório da empresa, a três mil quilómetros,
noutro país, noutra cultura. A decisão estava adiada há um mês, na expetativa
da desistência ou do esquecimento, poupando-se à angústia da mudança, ao medo
da responsabilidade. “E se voltar a convidar-me?”, perguntava ele.
Já
a jovem M. debatia-se com a aceitação da sua homossexualidade no seio da
família conservadora, na sociedade escrava de preconceitos e na sua própria
ideia de normalidade. Vivia à margem dela mesma, numa culpabilização sem
tréguas, a respirar debaixo d’água sempre que se permitia exteriorizar emoções
genuínas. “E se não me aceitarem?”, questionava ela.
A
Sra. H., socialmente respeitada e profundamente infeliz, vinha experimentando
um conflito interior causado pela retração do ímpeto sexual que o assédio do
colega de trabalho lhe havia despertado. Habituara-se de tal forma à paz podre
do casamento e à ausência confortável de emoções, que a invasão daquele
formigueiro de excitação lhe trazia uma agonia de infratora, como se pensar e
sentir constituíssem contra-ordenações muito graves. “E se não me controlar?”,
indagava ela.
Também
o casal S. trazia uma dúvida, uma “questão de vida ou de morte”, como lhe
chamaram. A ela havia sido diagnosticado um cancro terminal acompanhado da
sentença de um a três meses de vida, conforme reação aos tratamentos. A ele
havia sido decretada a viuvez precoce, antecedida de calendário definido por
médicos à revelia de qualquer plano divino. “E se vivêssemos como se não
houvesse amanhã?”, interrogavam-se eles.
Duas
semanas depois, voltei a recebê-los. Tinha igual resposta para todos, com palavras
diferentes para cada um, salvaguardando o livre arbítrio e as consequências das
escolhas individuais. Aconselhei o Sr. P. a saltar de paraquedas, a jovem M. a
pintar o cabelo de laranja, a Sra. H. a aprender dança do varão e o casal S. a
comprar uma autocaravana. Ofereci-lhes ainda um exemplar do meu último livro, Se não arriscares nada, arriscas muito mais,
e pedi-lhes que arriscassem ser felizes.
Daqui
a quinze dias, haverá nova consulta.
5ª jornada
Um
cartão de São Valentim que nunca chegou. Explore este enredo.
CARTA ROUBADA
Aproveitei a ocasião para escrever uma carta.
Apetecia-me marcar pela diferença, ceder ao romantismo e codificar as emoções no
papel. Desliguei o telemóvel, alheei-me dos ruídos desconcertantes da cidade,
evadi-me das solicitações culposas do trabalho e concentrei-me apenas na
brancura expectante da folha. Como numa tela, passei em revista os quadros
vivos dos últimos meses de febre passional e contemplei o sentido poético deste
encontro. Era um mundo novo, de experiências sensoriais incomuns, de uma
combinação viciante de liberdade e aprisionamento. Sentia que fazíamos história
em todos os testemunhos fixados em fotos, nas mensagens trocadas, nas
experiências irrepetíveis, até mesmo nas pegadas com que marcávamos o chão com
os nossos passeios. Um amor a amadurecer desta forma merecia um manuscrito que
daqui a vinte anos, já com os cantos amarelados e a tinta desbotada da
humidade, fosse descoberto num baú de memórias num sótão quase com a mesma
idade… Muito ao estilo vintage, como
ela gosta. Procurei materializar em palavras o valor do compromisso e o desejo
de o eternizar, mesmo sabendo do caráter efémero das coisas, concretas ou abstratas.
Senti orgulho da minha carta, da honestidade e rendição com que a escrevi e das
horas que nela investi, como o artista que reconhece a verdade da sua obra.
Apressei-me, portanto, a remetê-la ao seu destinatário, apreciando o
revivalismo daquela ida aos correios, preterida há muito pela instantaneidade
da tecnologia.
No
regresso a casa, parado no semáforo, pareceu-me avistar os longos cabelos
negros da minha musa e reconheci, enfim, o seu caminhar ondulante. Os seus
passos eram acompanhados de um homem que lhe segurava a mão e enchia a rua com
risos vibrantes que a mim já atingiam como flechadas na cabeça, causando-me
dores lancinantes. Encostei o carro e centrei-me na namorada a quem tinha
endereçado uma carta. Dela vinha o brilho de um estado de graça que me era
incompreensível. E foi no momento do beijo despudorado que despertei para a
frieza da deslealdade. Abalei dali sufocado pela frustração de sentir e pelo
arrependimento da exposição, mas a carta já viajava pelos circuitos de
distribuição instituídos. Preferia reservar-me o direito de recuperar a
privacidade emocional.
Esperei,
não havia mais nada a fazer.
No
dia seguinte, dia de S. Valentim, ouvi as notícias. “Os assaltantes que
invadiram ontem a estação de correios de Celas terão levado toda a
correspondência do dia, na expetativa, talvez, de encontrar algum cheque ao
portador.”
6ª jornada
Escreva
uma história em que o personagem principal seja um fotógrafo de 60 anos de
idade.
FOTÓGRAFO DE VIDAS
Histórias de pessoas, retratos de culturas, sorrisos
de pobres, lágrimas de ricos, afetos partilhados e sentimentos estilhaçados a
forrarem uma mesa como uma toalha de padrões dinâmicos, aqui debruada a preto e
branco, ali rendilhada de cores vivas. Quarenta anos dedicados à arte de captar
emoções com um clique, alguma técnica, muita criatividade e todo o amor ali
estavam espalhados sobre aquela mesa, expectantes de admiração.
Haviam-lhe
pedido uma seleção das três fotos mais relevantes da sua carreira, que fosse
preparado para contar a história nelas refletida e para justificar a dedicação
de uma vida à representação da sociedade em imagens. Seria uma homenagem
singela, mas sentida, ainda que tardia, face ao número de prémios recebidos ao
longo do seu percurso profissional e ao legado cultural e artístico extraído do
mundo e a ele devolvido.
Apesar
da galopante névoa ocular, o fotógrafo concentrava-se novamente na toalha de
fotos, recordando o contexto de cada uma, fixando os olhos nos pormenores dos
rostos anónimos e fazendo interpretações inéditas de olhares, expressões e
movimentos. Todas eram importantes e escolher três em detrimento das restantes
seria como arrancar de um livro três páginas ao acaso para com elas resumir todo
o livro… No meio dos muitos recortes fotográficos dispostos quase
aleatoriamente, detinha-se aqui e ali numa fotografia de um amigo, de um
familiar, dos filhos, da esposa, de gente já ida, dos que permaneciam ainda e
daqueles de quem tinha perdido o rasto. Ordenou com dificuldade uma série de
retratos da mulher, jovem e plena de saúde, extasiada com a descoberta da
maternidade, a defender causas com convicção e a lutar numa cama de hospital, a
despedir-se, ainda com a mesma beleza e a mesma luz…
No
nevoeiro da memória, percebeu que fotos deveria levar. Foi buscar a velha
máquina, avesso que era à tecnologia digital, e procurou captar a visão de
conjunto daquele patchwork perfeito.
De seguida, fotografou a sua mão esquerda com os dedos a procurarem um enquadramento.
Finalmente, após várias tentativas, conseguiu a foto possível do seu olho
direito.
Uma
semana depois, na cerimónia, “apresentou-se” e justificou a escolha: “Mário
Matoso, 60 anos, parcialmente cego e doente de Parkinson, fase quatro. Fui, até
há uma semana atrás, fotógrafo de Vidas, de acasos e despedidas. Revelo-vos
hoje as três fotos mais representativas da minha paixão: os rostos do meu
portefólio, a pontaria do meu olho, a destreza da minha mão. Até sempre.”
7ª jornada
Um
jovem executivo está, a roer as unhas e nervoso, sentado na mesa do seu
escritório. Em que pensa ele?
ACONTECEU NUM ESCRITÓRIO
Luís olhava fixamente, ora para o telefone sobre a
secretária, ora para a porta que ainda o preservava do mundo “normal”, enquanto
mantinha a cadência frenética do pé direito a calcar o chão alcatifado e roía
sofregamente a unha do dedo médio da mão esquerda. Todo o seu corpo era uma
ramificação complexa de fios elétricos e a cabeça era o centro de operações a
latejar de tanta informação, da tensão acumulada, da dor da consciência.
Procurava ainda a motivação razoável que o teria levado a empreender aquela coleção
de erros repetidos ao longo de anos, sobretudo agora que era obrigado a
confrontar-se com essa caderneta de culpas exclusivas. Quanto mais pensava no
executivo em que se havia tornado em tão pouco tempo, na simplicidade com que a
vida o guiara ao sucesso e na forma como ele próprio, ingrato, se apropriara
dessa bonança, mais certezas tinha da patologia que o caracterizava: Luís reconhecia
ser um errante compulsivo. O erro era-lhe intrínseco e a culpa tardia
funcionava como o analgésico breve da vitimização, do arrependimento. Passado o
efeito, tomava uma boa vitamina de esquecimento para fazer o circuito recomeçar
com renovada confiança, porque os fins justificavam os meios. No momento em que
a gravidade da situação suplantava o limite do tolerável social e
juridicamente, passava em revista os delitos cometidos com um misto de
perturbação, incompreensão e orgulho sádico… Começaram por ser experiências teatrais
de mentiras brancas em casa e na escola, de ocultação ou invenção de
identidade, de pequenos furtos da biblioteca e da livraria, tudo feito com um
engenho e uma perícia precoces demais… A impunidade marcou o compasso e
determinou a opção por um tipo de crime mais organizado, menos ingénuo, com objetivos
precisos. Foi assim que acabou um curso que nunca frequentou, que herdou
heranças de quem acabara de conhecer, que conseguiu um emprego sem competências
técnicas para o assumir, que convenceu anónimos a contribuírem para causas que
nunca existiram… Até ao dia em que a racionalidade se deixou afetar pela emoção
e Luís apaixonou-se! Helena era uma mulher astuta, vibrante, sedutora, com um
“cadastro” invejável que logo cativou Luís… Tudo se precipitou: Luís passara de
predador a presa e ia responder pelos comportamentos desviantes agora expostos
perante a sociedade. Continuava a jogar ping-pong com o olhar à espera da
inevitável resolução, quando tocou o telefone, bateram à porta… Luís disparou.
8ª jornada
“Dar-lhe
o meu número de telefone foi, percebi-o depois, um grande erro.”
ERRO DE EXPETATIVA
Guardava muita expetativa em relação àquela
conferência. O tema da interpretação das emoções no contexto de uma sociedade
cada vez mais individualista e castradora era-me caro enquanto psicóloga e formadora.
A parte da manhã foi interessante, dividida entre conceitos gerais da
psicologia e a forma como as organizações têm observado e (des)valorizado a
democratização das emoções e da “felicidade” no seu funcionamento. A primeira
comunicação da tarde foi morna, sem acrescentar nada de novo ao já conhecido
senso comum. Era curioso perceber como, num encontro subordinado a este tema,
as pessoas continuavam a não ser sinceras, a manter posturas demasiado rígidas,
controladas, de um respeito cínico, um cuidado artificial, visíveis na
contradição entre o que era dito no palco, ali em cima, e o que era demonstrado
no coletivo, ali em baixo. Começava a considerar a hipótese de abandonar o
centro de congressos mais cedo… Mas resolvi dar uma oportunidade ao segundo
painel. Em boa hora, considerei na altura, logo no momento em que o meu olhar
acompanhou o caminhar balanceado do homem que haveria de conseguir despertar os
sentidos daquela plateia, exigente e ávida do inesperado, a querer emoções
fortes. Bom, a mim, definitivamente, despertou!
Um
neurologista na casa dos quarenta que veio convitamente revelar o trabalho que
vinha desenvolvendo no sentido de incluir na medicina convencional o tratamento
das emoções, enquanto resposta a tantas lacunas que a primeira não conseguia
colmatar. A determinação, a confiança e a ousadia da sua comunicação e da sua
presença arrebataram-me. De tal forma que, mal se deram por terminadas as comunicações,
me dirigi a ele com alguma ansiedade, mas com o objetivo concreto de lhe
transmitir a minha admiração que acabou por ser recebida com grande humildade.
Encetámos um diálogo pautado por uma química inteletual totalmente inusitada
que nos levou a prolongá-lo pela noite fora. Despedimo-nos precipitadamente, já
quase de madrugada, falando já de parcerias profissionais e encontros pessoais,
para confirmarmos a reciprocidade do encantamento. Um abraço, um toque, muita
emoção, a promessa de um contacto, uma grande expetativa.
Dois
meses depois, continuava ainda à espera da consumação desse encontro que veio
engrossar a lista dos enganos, das fraudes, das frustrações causadas por se
esperar sempre demais dos outros. Dar-lhe o meu número de telefone foi,
percebi-o depois, um grande erro. Tinha sido a prova cabal da minha expetativa
e isso é, no coletivo, motivo de medo e repúdio. Mais do mesmo.
9ª jornada
O
que faz com que o apresentador de um programa de televisão se mostre, de
repente, absolutamente em pânico com uma mosca que voa junto à sua cabeça?
A QUARTA PRAGA
O alarme tocava, anunciando o sacrifício de despertar
para mais um dia num mundo transformado em cenário apocalítico, onde os quatro
elementos e as espécies vinham intentando o extermínio progressivo da raça
humana. Aproximando-se da janela, de onde podia observar os primeiros
movimentos rotineiros da cidade, David constatava o ritmo cada vez mais brando
e os espaços cada vez maiores nas estradas, nos passeios, nos jardins. “Somos
cada vez menos… cada dia somos menos aos milhares…”, refletia, enquanto a sua
memória o guiava até há cerca de três meses atrás, momento em que as pragas
começaram a suceder-se, levando à dizimação dos primeiros núcleos populacionais.
Nem Hollywood preparara o mundo para tal experiência – a ficção era
ultrapassada pela realidade de forma parcialmente incrédula, quando uns
aceitavam a morte como garantida, muitos ainda acalentavam a possibilidade do
final feliz, enquanto outros tantos se arriscavam na busca da solução,
procurando saldar a dívida com a quota integral da responsabilidade. Tratava-se,
já não restavam dúvidas, da reprodução das dez pragas do Egito… com dez vezes
mais amplitude. Depois da contaminação dos principais rios de cada continente –
não decorrente, desta vez, de erupção vulcânica -, da invasão de rãs e sapos
mutantes a espalhar epidemias, e do surto de piolhos de dimensões amplificadas
e picadas mortíferas, perante a ausência de explicação científica e a
semelhança assombrosa com a descrição das primeiras três pragas no livro do
Êxodo, admitiu-se a repetição da ação reparadora
de Deus, como inscrito na Bíblia.
David
apresentava um programa de informação duma estação de televisão nacional, tendo
como convidados de debate dos últimos meses defensores e opositores desta
teoria, alguns entretanto já vítimas das contaminações. Preparava-se, hoje,
para gravar mais um desses programas que prometia elevadas audiências, dado o
caráter profético de que se revestia. Afinal, aceitar a ideia da reprodução das
pragas implicava algo muito mais catastrófico: as sete que se seguiriam… Daí
que durante a discussão se tenha instalado um mal estar crónico, resultante do
mais duro reconhecimento da impotência humana.
E
foi no momento da letargia moribunda a anteceder o final do debate que se ouviu
no estúdio um zumbido perturbado. David percebeu, em absoluto pânico, a
presença da mosca junto à sua cabeça. Técnicos e convidados haviam acorrido ao
exterior do estúdio para obter a terrível confirmação. A nuvem de moscas
trouxera as trevas prematuramente, preparando-se para desabar sobre a
humanidade. Cumpria-se a quarta praga.
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