terça-feira, 11 de setembro de 2012

Aqui viveram duas rainhas



Conta-me. Conta-me, mãe, histórias desta cidade. Explica-me como te deixaste seduzir pelos seus encantos, como te permitiste amar assim uma cidade, a forma como o teu coração acompanha o seu ritmo compassado. Faz-me compreender como se desperta neste sítio, o volume da experiência que carregas contigo, a forma como o teu corpo se pinta das suas cores. Desenha-me o teu passado em grandes telas para que eu possa reconhecer os capítulos da vida académica, dos namoros mais ou menos incógnitos, dos convívios inesperados de uma loucura sã e passageira, das amizades que definharam por falta de alimento.
Aqui vejo-te a chegar, assustada. Coimbra é uma senhora muito velha, muito alta, muito sábia, respeitada e distante. É preciso conquistá-la, ganhar o seu respeito, conhecer-lhe as veias dilatadas e a estreiteza das suas artérias, chegar-lhe ao coração e oxigenar-lhe o cérebro. A atração foi recíproca e a energia mística da cidade haveria de trazer-te outra vez, não se sabe por quanto tempo… Naqueles teus álbuns pretos orgulhosamente expostos na prateleira envidraçada, observo a cronologia da tua capa preta, a tua fotobiografia académica de cuja escuridão sobressai a luz branca e azul de noites e dias inigualáveis. Como aquela tenebrosa imagem em que te vejo a segurar dois ossos mesmo à frente de um caixão aberto na vertical presente no único principado da cidade que já nem sei se existe, com um ar entre o “afinal o que estou a fazer aqui mesmo?!” e “pá, isto até é divertido e o pior que pode acontecer é fecharem-me no caixão, embebedarem-se e esquecerem-se de mim!” Era mais do que a praxe, era o apetite pela novidade, pelo submundo, e querer ocupar uma parcela do todo que parecia tanto. Como daquela vez que fizeste parte de uma trupe feminina, uma mancha negra de mulheres encapuzadas, o terror das caloiras transgressoras, de que que resultou, afinal, apenas uma mecha de cabelo cortado dos cachos loiros de uma açoriana distraída com a diferença horária e que prometeu não mais andar sozinha na rua depois da meia noite.
Um dos mais impressionantes episódios terá sido a tua primeira manifestação em traje académico, numa das muitas lutas que não eram tuas, mas que podiam muito bem ser, longe de Coimbra, mas com Coimbra. Lá estavas tu na trincheira, invariavelmente envergando o bastião da verdade e da justiça na forma de uma bandeira, de um lema, de uma causa. Descalça, sentiste no asfalto da 5 de outubro a vibração das botas repressoras e as limitações da expressão livre, enquanto corrias e ouvias gritos de resistência e dor de quem se tinha recusado a tirar os sapatos. Paraste, enjoada, com vontade de vomitar cravos vermelhos…
Este é mesmo um lugar de amores possíveis e impossíveis e tu, mãe, também viveste os teus. Foram feitas escolhas, decisões tomadas no jardim da Sereia, delineados projetos de vida à beira rio, sonetos de amor lidos já com saudade naquele penedo e até uma serenata te cantaram junto à janela baixa daquele quarto forrado a palavras e imagens. Coimbra foi a minha primeira mãe, a primeira que me sonhou, a ela lhe devo a lei da atração de que sou resultado. Segundo tu, também lhe ficas a dever a experiência do namoro novelístico com o homem que viria a ser meu pai – gostava tanto de vos ter conhecido apaixonados! Perdoo-vos porque se permitiram sentir novos pulsares e, assim, testemunhei a vossa alegria. E esta foi a tua cidade reconciliadora, mãe, com o teu passado, com a tua culpa, com os teus atrasos. Não estás atrasada, mãe. Estás no sítio certo no momento certo e tudo pode ainda acontecer.
Aqui viveram duas rainhas, uma santa generosa, abençoada com o milagre da transformação, e outra que só o foi depois de morta e viu o seu nome inscrito em símbolos e referências ao amor eterno. Tu e eu somos rainhas do nosso tempo, mãe, partilhamos do milagre do presente e da eternidade do Agora. E é Aqui que o fazemos, na cidade do conhecimento, onde a maior lição é conhecê-la.

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