Conta-me. Conta-me, mãe, histórias desta cidade. Explica-me
como te deixaste seduzir pelos seus encantos, como te permitiste amar assim uma
cidade, a forma como o teu coração acompanha o seu ritmo compassado. Faz-me
compreender como se desperta neste sítio, o volume da experiência que carregas
contigo, a forma como o teu corpo se pinta das suas cores. Desenha-me o teu
passado em grandes telas para que eu possa reconhecer os capítulos da vida
académica, dos namoros mais ou menos incógnitos, dos convívios inesperados de
uma loucura sã e passageira, das amizades que definharam por falta de alimento.
Aqui vejo-te a chegar, assustada. Coimbra é uma senhora
muito velha, muito alta, muito sábia, respeitada e distante. É preciso
conquistá-la, ganhar o seu respeito, conhecer-lhe as veias dilatadas e a
estreiteza das suas artérias, chegar-lhe ao coração e oxigenar-lhe o cérebro. A
atração foi recíproca e a energia mística da cidade haveria de trazer-te outra
vez, não se sabe por quanto tempo… Naqueles teus álbuns pretos orgulhosamente
expostos na prateleira envidraçada, observo a cronologia da tua capa preta, a
tua fotobiografia académica de cuja escuridão sobressai a luz branca e azul de
noites e dias inigualáveis. Como aquela tenebrosa imagem em que te vejo a
segurar dois ossos mesmo à frente de um caixão aberto na vertical presente no
único principado da cidade que já nem sei se existe, com um ar entre o “afinal
o que estou a fazer aqui mesmo?!” e “pá, isto até é divertido e o pior que pode
acontecer é fecharem-me no caixão, embebedarem-se e esquecerem-se de mim!” Era
mais do que a praxe, era o apetite pela novidade, pelo submundo, e querer
ocupar uma parcela do todo que parecia tanto. Como daquela vez que fizeste
parte de uma trupe feminina, uma mancha negra de mulheres encapuzadas, o terror
das caloiras transgressoras, de que que resultou, afinal, apenas uma mecha de
cabelo cortado dos cachos loiros de uma açoriana distraída com a diferença
horária e que prometeu não mais andar sozinha na rua depois da meia noite.
Um dos mais impressionantes episódios terá sido a tua
primeira manifestação em traje académico, numa das muitas lutas que não eram
tuas, mas que podiam muito bem ser, longe de Coimbra, mas com Coimbra. Lá
estavas tu na trincheira, invariavelmente envergando o bastião da verdade e da
justiça na forma de uma bandeira, de um lema, de uma causa. Descalça, sentiste
no asfalto da 5 de outubro a vibração das botas repressoras e as limitações da
expressão livre, enquanto corrias e ouvias gritos de resistência e dor de quem
se tinha recusado a tirar os sapatos. Paraste, enjoada, com vontade de vomitar
cravos vermelhos…
Este é mesmo um lugar de amores possíveis e impossíveis e
tu, mãe, também viveste os teus. Foram feitas escolhas, decisões tomadas no
jardim da Sereia, delineados projetos de vida à beira rio, sonetos de amor
lidos já com saudade naquele penedo e até uma serenata te cantaram junto à
janela baixa daquele quarto forrado a palavras e imagens. Coimbra foi a minha
primeira mãe, a primeira que me sonhou, a ela lhe devo a lei da atração de que
sou resultado. Segundo tu, também lhe ficas a dever a experiência do namoro
novelístico com o homem que viria a ser meu pai – gostava tanto de vos ter
conhecido apaixonados! Perdoo-vos porque se permitiram sentir novos pulsares e,
assim, testemunhei a vossa alegria. E esta foi a tua cidade reconciliadora,
mãe, com o teu passado, com a tua culpa, com os teus atrasos. Não estás
atrasada, mãe. Estás no sítio certo no momento certo e tudo pode ainda
acontecer.
Aqui viveram duas rainhas, uma santa generosa, abençoada com
o milagre da transformação, e outra que só o foi depois de morta e viu o seu
nome inscrito em símbolos e referências ao amor eterno. Tu e eu somos rainhas
do nosso tempo, mãe, partilhamos do milagre do presente e da eternidade do
Agora. E é Aqui que o fazemos, na cidade do conhecimento, onde a maior lição é
conhecê-la.