| Concerto U2 | 02-10-2010 | Coimbra |
| 45 mil pessoas a cantar Sunday, Bloody Sunday e a pedir pela PAZ |
Há 41 anos era domingo, em Derry, Irlanda do Norte. E, tendo
eu nascido para o mundo apenas 3 anos depois, esta informação de calendário é a
única que posso matematicamente atestar sem recorrer às centenas de linhas que
se escreveram, às canções que se cantaram, às fotos que se publicaram, aos
vídeos e filmes que se produziram para a humanidade (ou falta dela…) não mais
esquecer o sangue inocente que tingiu o verde esperança daquela terra.
Tinha eu os meus 15 anos quando os irlandeses U2 começaram a
fazer parte das minhas preferências musicais. Nessa altura já era sócia e
voluntária da Aministia Internacional, participando em iniciativas locais e
nacionais em prol dos direitos humanos, ao mesmo tempo que, nos intervalos das
típicas fases do “armário”, procurava mediar a incompreensão da crueldade
gratuita com a crença utópica num mundo mais tolerante e imaterial. Desde esse
período que acredito nas pessoas e continuo a trabalhar para elas, profissional
e voluntariamente, apesar do peso da contradição do que fica registado nos
livros de história e na imprensa atualizada. E, assim, dedicava-me a longas
horas de leitura, incluindo as letras das canções que gritavam o que eu não
conseguia, pelo menos ainda. Não tínhamos o Google e nem sempre os singles e o
LP’s traziam as letras em anexo, por isso habituara-me aos botões de rewind e do stop do leitor de cassetes, até obter as lyrics completas de alguns dos estandartes musicais da minha adolescência,
do Imagine, passando pelo We Are The World, ao Pride (In the Name of Love), entre
muitos outros exemplos de canções de “intervenção” social e humana em inglês, que
constituíam, paralelamente ao desafio autodidata da língua, uma trend mais
comercial da época de que o meu grupo de amigos era acérrimo seguidor. Só anos
mais tarde eu viria a (re)conhecer o caráter interventivo da língua portuguesa nos
poetas e cantores de 70 e a “envolver-me” emocionalmente com a canção de Zeca
Afonso, só para começar. Dos anos 70 vinha mesmo um apelo tão forte quanto incompreensível,
mas que proporcionava incursões culturais de grande valor para a minha
estrutura pessoal e profissional. Foi, portanto, numa dessas incursões que me detive
no Sunday, Bloody Sunday dos U2 e
que, conhecendo brevemente o contexto histórico e político baseado na usurpação
do poder (que até hoje considero primitivo) e no abuso irracional da
autoridade, rendi-me em solidariedade e identificação à forma emocionada com
que Bono Vox homenageou as 26 peões da luta pelos direitos humanos, vítimas
mortais do ataque ignóbil das forças militares britânicas.
Desde então, volvidos já 26 anos, continuo a lembrar a homenagem
e a ouvir a canção que marcou definitivamente a perda da ilusão da inocência
embora, curiosamente, tenha aumentado a esperança de dias melhores e mais
tolerantes. Afinal, pessoas apaixonadas por causas não desistem… nem das
causas, nem das pessoas.





