Farta-te dos hábitos de que te tornaste prisioneiro, do som
rotineiro do tique-taque do relógio que não te deixa sentir o pulso, dos lados
tão perfeitos desse quadrado-cela em que te inscreves!
Farta-te da voz que te abafa a vontade, que te lembra de
culpas insondáveis, que argumenta contra o teu amor-próprio (o que te resta…)!
Farta-te da miserabilidade a que te condenas, pára de pôr o
foco no problema (qual problema, afinal?), de dar valor ao superficial, ao circunstancial!
Farta-te de desperdiçar tempo, de gastar energia, de adiar o
presente, de protelar o plano da tua Vida!
Farta-te das zonas cinzentas, dos “ses” duvidosos, dos
“talvez” indefinidos, dos “nins” insalubres!
Farta-te da decoração da tua casa, do caminho para o
trabalho, da cor das paredes do teu gabinete, das palavras que usas todos os
dias para encetar conversa, dos silêncios com que respondes!
Farta-te da aparência, abandona preconceitos e formatações, deita abaixo os muros visíveis e
invisíveis, despoja-te das velhas roupas, limpa o amontoado de lixo à tua
porta, sacode a poeira!
Farta-te de não fazeres o que dizes, de não corresponder ao
que és, de controlar o que sentes, de agradares aos outros por sacrifício (e,
por favor, não digas que é por amor!) e de mostrares aos outros exatamente o que
esperam!
Farta-te da resignação, da espera, da solidão, das
meias-verdades, da pressão exterior, da hipocrisia, do queixume egoísta, de
migalhas…! Cansa-te daquilo que te cansa nos outros!
Farta-te da ausência de alegria, de sorrisos, de
gargalhadas! Farta-te da falta de afeto, de abraços, de beijos, de companhia,
de genuinidade! Farta-te de não dares descanso à mente e ao corpo, de não
respeitares os teus limites, de não aceitares que és o Suficiente para ti, para
Deus, para os que te amam… Farta-te de procurar o que não existe, pára de
querer encher a metade vazia do copo, quando ainda nem provaste a metade cheia…!
Espero que estejas já muito cansad@ e fart@, quero-te mesmo com
muita falta de ar para que abras essas janelas e escancares os portões! Preciso
mesmo que sintas o pânico de não respirar e procures o oxigénio que te salve!
Peço até que chegues àquele ponto em que a vida passa por ti num flash e tu
perguntas, aflito, “ainda tenho tempo?!”
Claro que tens tempo! Desperta e vai lá para fora! Limita-te
a contemplar, aprecia, deixa-te surpreender!
E por falar em tempo, há quanto tempo não…
… fazes uma caminhada?
… passeias de mãos dadas?
… contas as estrelas?
… ficas uma noite em claro a conversar?
… acendes uma fogueira e… saltas?
… vês o dia a nascer… ou o sol a pôr-se, de um sítio mágico?
… arrumas as tuas gavetas, os teus armários?
… deitas fora o que não te faz falta?
… cantas, mesmo desafinad@?
… danças, mesmo desalinhad@?
… jogas, mesmo sem boas cartas?
… pregas uma partida?
… dás aquela gargalhada?
… fazes algo que ainda não fizeste?
Farta-te, portanto, de não fazeres o mais simples e o mais
fácil há muito, muito tempo…
Faz deste o teu momento zero e arrisca ser simples, fácil e
pur@, como uma criança.
Começa hoje! Farta-te do que já era(s)!
Espero-te no parque de diversões. Estarei com uma gabardina
vermelha e galochas amarelas, a comer algodão doce! Não demores… vou precisar
de ti para saltarmos ao eixo!
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