quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Melhores domingos





Concerto U2 | 02-10-2010 | Coimbra

45 mil pessoas a cantar Sunday, Bloody Sunday e a pedir pela PAZ
Há 41 anos era domingo, em Derry, Irlanda do Norte. E, tendo eu nascido para o mundo apenas 3 anos depois, esta informação de calendário é a única que posso matematicamente atestar sem recorrer às centenas de linhas que se escreveram, às canções que se cantaram, às fotos que se publicaram, aos vídeos e filmes que se produziram para a humanidade (ou falta dela…) não mais esquecer o sangue inocente que tingiu o verde esperança daquela terra. 


Tinha eu os meus 15 anos quando os irlandeses U2 começaram a fazer parte das minhas preferências musicais. Nessa altura já era sócia e voluntária da Aministia Internacional, participando em iniciativas locais e nacionais em prol dos direitos humanos, ao mesmo tempo que, nos intervalos das típicas fases do “armário”, procurava mediar a incompreensão da crueldade gratuita com a crença utópica num mundo mais tolerante e imaterial. Desde esse período que acredito nas pessoas e continuo a trabalhar para elas, profissional e voluntariamente, apesar do peso da contradição do que fica registado nos livros de história e na imprensa atualizada. E, assim, dedicava-me a longas horas de leitura, incluindo as letras das canções que gritavam o que eu não conseguia, pelo menos ainda. Não tínhamos o Google e nem sempre os singles e o LP’s traziam as letras em anexo, por isso habituara-me aos botões de rewind e do stop do leitor de cassetes, até obter as lyrics completas de alguns dos estandartes musicais da minha adolescência, do Imagine, passando pelo We Are The World, ao Pride (In the Name of Love), entre muitos outros exemplos de canções de “intervenção” social e humana em inglês, que constituíam, paralelamente ao desafio autodidata da língua, uma trend mais comercial da época de que o meu grupo de amigos era acérrimo seguidor. Só anos mais tarde eu viria a (re)conhecer o caráter interventivo da língua portuguesa nos poetas e cantores de 70 e a “envolver-me” emocionalmente com a canção de Zeca Afonso, só para começar. Dos anos 70 vinha mesmo um apelo tão forte quanto incompreensível, mas que proporcionava incursões culturais de grande valor para a minha estrutura pessoal e profissional. Foi, portanto, numa dessas incursões que me detive no Sunday, Bloody Sunday dos U2 e que, conhecendo brevemente o contexto histórico e político baseado na usurpação do poder (que até hoje considero primitivo) e no abuso irracional da autoridade, rendi-me em solidariedade e identificação à forma emocionada com que Bono Vox homenageou as 26 peões da luta pelos direitos humanos, vítimas mortais do ataque ignóbil das forças militares britânicas.


Desde então, volvidos já 26 anos, continuo a lembrar a homenagem e a ouvir a canção que marcou definitivamente a perda da ilusão da inocência embora, curiosamente, tenha aumentado a esperança de dias melhores e mais tolerantes. Afinal, pessoas apaixonadas por causas não desistem… nem das causas, nem das pessoas.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Farta-te!



Farta-te dos hábitos de que te tornaste prisioneiro, do som rotineiro do tique-taque do relógio que não te deixa sentir o pulso, dos lados tão perfeitos desse quadrado-cela em que te inscreves!


Farta-te da voz que te abafa a vontade, que te lembra de culpas insondáveis, que argumenta contra o teu amor-próprio (o que te resta…)!


Farta-te da miserabilidade a que te condenas, pára de pôr o foco no problema (qual problema, afinal?), de dar valor ao superficial, ao circunstancial!


Farta-te de desperdiçar tempo, de gastar energia, de adiar o presente, de protelar o plano da tua Vida!

Farta-te das zonas cinzentas, dos “ses” duvidosos, dos “talvez” indefinidos, dos “nins” insalubres!


Farta-te da decoração da tua casa, do caminho para o trabalho, da cor das paredes do teu gabinete, das palavras que usas todos os dias para encetar conversa, dos silêncios com que respondes!


Farta-te da aparência, abandona preconceitos e formatações, deita abaixo os muros visíveis e invisíveis, despoja-te das velhas roupas, limpa o amontoado de lixo à tua porta, sacode a poeira!


Farta-te de não fazeres o que dizes, de não corresponder ao que és, de controlar o que sentes, de agradares aos outros por sacrifício (e, por favor, não digas que é por amor!) e de mostrares aos outros exatamente o que esperam!


Farta-te da resignação, da espera, da solidão, das meias-verdades, da pressão exterior, da hipocrisia, do queixume egoísta, de migalhas…! Cansa-te daquilo que te cansa nos outros!


Farta-te da ausência de alegria, de sorrisos, de gargalhadas! Farta-te da falta de afeto, de abraços, de beijos, de companhia, de genuinidade! Farta-te de não dares descanso à mente e ao corpo, de não respeitares os teus limites, de não aceitares que és o Suficiente para ti, para Deus, para os que te amam… Farta-te de procurar o que não existe, pára de querer encher a metade vazia do copo, quando ainda nem provaste a metade cheia…!


Espero que estejas já muito cansad@ e fart@, quero-te mesmo com muita falta de ar para que abras essas janelas e escancares os portões! Preciso mesmo que sintas o pânico de não respirar e procures o oxigénio que te salve! Peço até que chegues àquele ponto em que a vida passa por ti num flash e tu perguntas, aflito, “ainda tenho tempo?!”


Claro que tens tempo! Desperta e vai lá para fora! Limita-te a contemplar, aprecia, deixa-te surpreender!

E por falar em tempo, há quanto tempo não…

… fazes uma caminhada?

… passeias de mãos dadas?

… contas as estrelas?

… ficas uma noite em claro a conversar?

… acendes uma fogueira e… saltas?

… vês o dia a nascer… ou o sol a pôr-se, de um sítio mágico?

… arrumas as tuas gavetas, os teus armários?

… deitas fora o que não te faz falta?

… cantas, mesmo desafinad@?

… danças, mesmo desalinhad@?

… jogas, mesmo sem boas cartas?

… pregas uma partida?

… dás aquela gargalhada?

… fazes algo que ainda não fizeste?



Farta-te, portanto, de não fazeres o mais simples e o mais fácil há muito, muito tempo…

Faz deste o teu momento zero e arrisca ser simples, fácil e pur@, como uma criança.


Começa hoje! Farta-te do que já era(s)!


Espero-te no parque de diversões. Estarei com uma gabardina vermelha e galochas amarelas, a comer algodão doce! Não demores… vou precisar de ti para saltarmos ao eixo!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

LINA





Não a conheci, mas parece que convivi com ela ao longo dos anos. A Lina marcou uma presença forte na vida da minha mãe e, inevitavelmente, na minha. Para mim, a Lina representou a heroína em regime de exclusividade e restrição de uma pequena parcela do mundo, pois das histórias dos pequenos grandes heróis não reza a lenda, não costuma correr muita tinta nem tão pouco se lhes perpetua a memória em registo cinematográfico. No caso da Lina, tal seria efetivamente impossível: poucas palavras para além das sagradas poderiam descrevê-la e a sua aura era demasiado grande e livre para caber dentro de um filme. Para além disso, nada do que fosse passível de comercialização seria concebível no conceito de sacrifício missionário e de valorização do trabalho enquanto meio de edificação espiritual refletidos em todas as ações da Lina. 


«A Lina não pertencia a este mundo» era a descrição mais curta e mais vasta que dela fazia a minha mãe. A mim, custava-me a entender e soava-me a justificação eufemística fabricada para ludibriar a minha perspicácia precoce. No entanto, fingia perceber o alcance imaterial das suas palavras e pedia que me repetisse a «história da Lina» de quando em quando, para me ir convencendo da ordem lógica e natural das coisas e aceitando a morte apenas como a meta do mundo físico… Troquei muitas vezes a violência crónica do lobo mau e o cinismo pungente do “felizes para sempre” para ouvir a versão lírica e comovente desse acontecimento simultaneamente trágico e redentor. 


De cada vez que a minha mãe me relatava os acontecimentos, eu sentia que ela se esquecia mais que eu era a sua interlocutora e o cuidado em nivelar a linguagem era menor. Assim, eu ia sabendo cada vez mais pormenores.  A Lina tinha abraçado uma missão superior àquela para que se tinha proposto na Fonte Boa, em Moçambique, pelos Leigos para o Desenvolvimento. Movida pela fé e pela coragem da Filha que cumpre os desígnios do Pai, em nome do Amor maior, partiu para ser mais feliz … e foi. Nisto acreditou sempre a minha mãe, mesmo quando se engasgava de saudades, de incompreensão e da culpa de não se ter despedido. Só na última vez que me contou de uma mensagem de parabéns que, apesar de todas as dificuldades de comunicação, a Lina lhe havia enviado em junho, percebi que já se perdoara, como se finalmente chegasse o relatório da entrega da sua resposta. A nossa ida a Aguiar da Beira para visitar a família da Lina, os lugares cheios da Lina e a sua “morada” no cemitério onde reinava a paz dos anjos, constituiu, para mim, um salto na minha maturidade espiritual. Ali vi a minha mãe abraçá-la, falar-lhe e cantar-lhe e senti a força vibrante da resposta. Foi nesse momento que a reconheci. “A Lina também te conheceu, filha, carregou-te no colo e foi dela que recebeste a primeira Oração”, confirmou-me a minha mãe.

Depois dessa visita, fizemos ainda um périplo por Coimbra, onde a Lina e a minha mãe se conheceram. Visitámos as janelas da casa que as acolheu, as ruas até à Universidade por onde passavam a pé, a Igreja que recebia a Lina quase todos os dias, o Instituto Justiça e Paz onde estudavam, os recantos das confidências, risos, experiências e orações partilhadas. Ainda hoje, quando aí passo, me comovo e ouço a minha mãe a contar-me da Lina. Do mesmo modo que nos comovemos todos quando celebramos a 25 de dezembro o dia que Deus escolheu para a trazer ao mundo e, assim, passámos a valorizar o Natal noutra dimensão.

 O tempo passa e nós acumulamos memórias, mas há espíritos que perduram e se mantêm ao de cima, mostrando-nos o sentido imaterial da Vida, o único que Ela deveria ter.


Obrigada, Lina, pela Luz, pela Clarividência, pelo Verbo!



Palavras da minha mãe no livro editado pela CM de Aguiar da Beira, dedicado à Lina
Idalina Gomes, Confidências de uma Alma Inquieta 25/12/75 | 06/11/06

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Milagre




Nem sempre O vemos, nem sempre assim o entendemos, mas Ele existe, ocorre e repete-se.

Acontece aos outros e a nós, acontece-me a mim com uma regularidade constante.

Dá-se naquele momento em que a nossa mãe nos fala depois de uma cirurgia delicada à coluna. Ou naquele outro em que o nosso irmão nos confirma, mesmo a chorar, que foi “só chapa e uns arranhões”. Partilhamo-lO com a melhor amiga cujo resultado da biópsia foi negativo. Sentimo-lO no arrependimento daquele aluno que nos insultou gratuitamente. Procuramo-lO no abraço de perdão daquela pessoa com quem não falávamos há anos, já nem sabemos por que motivo. Vivemo-lO com o gato que resgatámos do abandono.

E, sobretudo, rendemo-nos a Ele quando após 32 horas sofridas de parto, despertamos para a Vida a que demos origem.

Há muitos Milagres que são noticiados e comentados, há outros Milagres que só alguns presenciam, há Outros de que ninguém sabe e há ainda Os que todos veem mas não sabem ou se esquecem que são efetivamente Milagres. Há Milagres da natureza e há Milagres humanos, ocorrem no campo, na cidade, em todos os continentes, nações, mesmo nos sítios onde parece não haver qualquer sinal de Milagre. Há Milagres de casa e há Milagres da rua, por dentro e por fora de nós mesmos podem dar-se Milagres. O Tempo é um Milagre e o Valor que lhe damos é Outro. Água no deserto, chuva na seca, sol no temporal, salvação na miséria, vida na morte, todos Milagres, de todos os dias.

Se assim o desejarem, poderão adotar esta curta definição como um manual de reconhecimento dos Milagres, quando estiveram mais distraídos da Vida…


Texto publicado no grupo do facebook 2012 Palavras, 2012 Autores, da autoria de Pedro Chagas Freitas